
Sun Ling
Floro Freitas de Andrade
(1933 – )
"E
ste guri vai ser muito importante", dizia a seu pai o velho Gersão, mulato de barba bíblica e olhar de profeta mendigo.
Hoje, Floro Freitas de Andrade se pergunta o que teria visto aquele mulato no guri inquieto, que não lhe dava atenção nem pelas balas oferecidas
entre as sujíssimas unhas. A final, desde aquele tempo ele só fazia por desmerecer a validade da profecia.
Nasceu no solstício de verão de 1933, em Charqueadas, que era apenas porto às margens do rio Jacuí, no município de São Jerônimo, Rio Grande do Sul. Não gostava de ir à escola.
Difícil era entender por que diabos devia ficar preso alí, se tinha para viver(e brincar) um quintal de mais de 10 quilômetros quadrados, os companheiros e a calorosa paz de gente simples.
Com a morte do pai, aos dezoito anos, largou a escola, pôs-se a trabalhar. Partiu para o Centro-Leste e chegou aos cerrados brasilienses.
Pensou em dilatar-se culturalmente, mas voltou-lhe a impaciência antiga. E lá se foram os meses todos em que não conseguira ser aluno, por tédio puro.
Mas um dia desengavetou-se escritor, talvez por ânsia de quintal. E como diz Floro, "o velho Gersão, que entre suas balas me dava como futuro presidente
(da República, sim!), foi pobre até como profeta. Tudo que consegui foi apenas guardar a criança em mim. E, se escrevi, foi também por brinquedo."